Educação

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Algumas recordações de um professor de história
por: Valter A. Costa
04/10/2014

(PRIMEIRO CAPÍTULO)

Nesse momento em que comemoro, na companhia de amigos da Educação e da militância política, meus cinqüenta e dois anos de vida, tenho outros motivos para estimular a memória e relembrar algumas coisas mais marcantes nessa caminhada. Estando com amigos que constituem referências nessas duas dimensões do percurso que comemoro, o trabalho na Educação Pública e o ação na militância política de esquerda, farei um retrospecto que dedico aos companheiros que hoje representam bem estes diferentes aspectos de meu restrito círculo de amizades. Nas pessoas deles: a querida colega Supervisora Escolar Ana Amato que encarna, com muito vigor,  a defesa intransigente da Educação Pública, da ética, do rigor profissional, do empenho e dedicação do servidor público; e do combatente parlamentar Adriano Diogo na sua luta permanente pela defesa dos Direitos Humanos, quero homenagear todos os demais amigos que são exemplos de conduta profissional e política. O pedaço da história,  que contarei,  dedico a esses amigos.

O Quintal da Infância na Parada XV de Novembro e a Estação de Trem

Não contarei da infância passada no quintal da Vila Santa Terezinha, numa rua do bairro Parada XV de Novembro, em Itaquera, mas que já ficava na divisa do bairro de Guaianases. Dos pés de manga e das seringueiras que tiveram que ser cortadas quando suas raízes ameaçaram a estrutura da casa invadindo até o poço que tínhamos numa época em que não dependíamos da água encanada, e escassa, da Sabesp. Ou das bananeiras que inspiravam meus desenhos da infância. Gostava de desenhar folhas de bananeira.

Pouparei o leitor dessas narrativas da infância e adolescência passada no bairro do XV de Novembro quando fazia uma boa caminhada até chegar na escola mais próxima, a Escola Estadual Comendador Mario Reys, na parte mais antiga e urbanizada do bairro, mais próxima da estação ferroviária, onde meu pai pegava o trem que o levou, por mais de duas décadas, à fábrica em que trabalhava no bairro do Ipiranga.

Deixo o quintal com as bananeiras, o pé de manga, as seringueiras e o meu pai pegando o trem na Parada XV num cantinho da minha memória. Agora quero falar somente de um outro aspecto dessas andanças. O início da vida de um professor, filho de operário. Ou o início da formação como professor. Essa ocorreu faz trinta anos, quando, em 1984, entrei no Curso de História da Universidade de Mogi das Cruzes.

O mesmo trem que meu pai pegava para ir para a fábrica no Ipiranga, eu pegava, no sentido oposto, para ir fazer história em Mogi. Gostava e gosto daquele caminho. Ainda me emociono quando passo por Ferraz de Vasconcelos, Poá ou Suzano. Nessa última cidade, existe até um parque com o nome do dono da fábrica em que meu pai trabalhou por mais de vinte anos, o Parque Leon Feffer, mas deixa eu voltar ao assunto pois prometi que não escreveria sobre o meu pai agora.

COM FAMILIA
O Curso de História em Mogi das Cruzes e a Militância no Partido Comunista

Fui um aluno meio atípico. Era caxias, lia bastante e tirava ótimas notas, mas sentava no fundo com os mais maloqueiros. Não era exatamente um aluno dos mais sociáveis. Pelo contrário: não freqüentava as baladas da época e não integrava os barulhentos grupos que animavam o trem nas viagens do retorno. Mas fui eleito, no primeiro ano do Curso, para presidir o Centro de Estudos Oscar Homes, o Centro Acadêmico do Curso de História. Na época eu militava no Partido Comunista Brasileiro e me lembro de ter enfrentado e derrotado a chapa integrada pelos alunos que atuavam no Partido dos Trabalhadores, o PT. Recordo que essa vitória me envaideceu,  pois minha chapa era formada por alunos do primeiro ano.

E achamos foi uma façanha encarar e derrotar alunos veteranos que estavam na outra chapa. Pura vaidade  juvenil.

Fizemos pouca coisa no curto mandato. Uma delas, da qual me orgulho, foi ter levado o Luis Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”  para Mogi das Cruzes.

Como comunista disciplinado, organizei a ida do Velho, tendo enfrentado certa oposição de professores   mas contando, por outro lado, com ajudas inesperadas. A chegada do Prestes foi um acontecimento histórico para a cidade. Foi recebido pelas autoridades municipais, prefeito e vereadores. Lembro que Prestes saiu do carro e mesmo com todas aquelas autoridades, a primeira pessoa que cumprimentou foi um velho comunista de Guaianases, o Honório Arce. Quando o Velho entrou no prédio, antigos militantes comunistas,  vindos sabe lá de onde, jogaram seus chapéus e ternos para o alto em sinal de saudação. Os mais jovens que estejam lendo esse trecho talvez até estranhem,  mas era isso mesmo: os velhos operários, ao longo do século XX, andavam de terno e chapéu.

Aliás, foi um velho guerrilheiro, o Zarattini pai, que ajudou na vinda do Prestes. Lembro que viemos no fusca do Zara pela Marginal e no caminho até Mogi o carro sofreu uma batida e o  pequeno ferimento provocado pelo acidente  nem estragou a emoção de ver o Prestes atravessar aquela multidão de operários que gritavam: “De Norte a Sul, de Leste a Oeste, o Povo todo Grita, Luís Carlos Prestes”. Queria muito saber onde andam aqueles outros garotos e garotas, de nossa turma de estudantes, que assistiram impressionados aquele encontro.  

Estava dizendo que, nessa época, militava no Partido Comunista. (Hoje sou militante do Partido dos Trabalhadores). Tinha entrado no Partido no final da década de setenta, quando as reuniões ainda eram clandestinas e nosso veículo de comunicação, proibido pela polícia política, era o Jornal  “Voz Operária”. A militância no Partido tinha me educado. Lia os teóricos do Marxismo. Dos manuais inspirados em Althusser aos modernos eurocomunistas seguidores de Gramsci.

Também aprendia com os militantes mais antigos. Nossa célula, do PCB, se reunia nas casas dos próprios militantes. Uma das casas era a do enfermeiro Geraldo Castro da Silva, que trabalhava no Hospital Santa Marcelina. Geraldo era também presidente da Sociedade Amigos de Vila Carmozina com sede localizada na Rua Baixada Santista. Outra casa usada era a do companheiro Sebastião Franscisco, O Negro, morador do bairro da Cidade Líder. Era  nessa última casa que tinha grandes aulas de história, dadas pelo próprio Sebastião Francisco. Contava sobre a história do movimento operário internacional. Falava das estratégias da polícia infiltrada nos movimentos. Dava dica de como reconhecer e lidar com policiais e provocadores. Era um revolucionário muito bem preparado. Tinha integrado o “Socorro Vermelho” que auxiliava os familiares da repressão política e compartilhava a experiência de quem tinha sido perseguido em várias ditaduras:

Sebastião Francisco tinha sido preso na rebelião militar da Aliança Nacional Libertadora, em 1935, liderada pelos comunistas. Tinha sido preso na mesma leva do Prestes, Olga Benário, Graciliano Ramos e outros milhares de militantes de esquerda. Eu fazia Curso de História na Universidade de Mogi, mas a história que mais me interessava era aquela que aprendia nas reuniões do Partido em Itaquera. E tinha vários professores.

COM ADRIANO LUANA KELLY LILIAN E ANDREIA DA EMEI ERNANI

A Militância Comunitária nas Sociedades Amigos do Bairro

Desde a instauração do Regime Militar, com o Golpe de 1964, parte dos comunistas tinha optado pela luta armada contra o sistema. Outra parte seguia a linha política do Partido,  de resistência na luta de massas, dentro dos sindicatos, imprensa, partidos políticos legais e organizações comunitárias. As células do Partido Comunista, nos finais dos anos setenta e início dos anos 80, que conseguiram se rearticular após os massacres ocorridos entre 1972 e 1975 que tinham dizimado quase todo o Comitê Central desse partido, atuavam, na Zona Leste de São Paulo, principalmente nas Sociedade Amigos de Bairro. Nessa época conheci alguns desses militantes. Além do Geraldo, da Vila Carmozina, do Sebastião, da Cidade Líder, também conheci outros comunistas históricos da região, como o Santos Bobadilha, de São Miguel e o Felix, de Ermelino Matarazzo. Recordo que em uma das reuniões que fizemos na casa do Félix, fiquei impressionado com a multidão de jovens que desciam a Av. Paranaguá em direção à Festa do Primeiro de Maio. Essa festa, na época, não nos interessava pois era uma comemoração que chamávamos de “pelega”. A população, sem essa leitura ideológica do evento, participava em peso.

Mas não era apenas de comunistas que era constituída a direção das entidades de moradores daquele período. As entidades comunitárias eram e são organizações plurais. As Sociedades Amigos que se constituíam para a conquista de melhorias urbanas básicas (pavimento de ruas, iluminação, construção de postos de saúde e escolas) aglutinavam lideranças de variadas colorações ideológicas. Existiam dirigentes situados no campo da oposição ao regime militar,  mas havia também um bom número dos que estavam vinculados ao regime. Dessa maneira, aprendendo a conviver com essas diferenças eu ia aprendendo coisas da cidade e desses bairros nas reuniões com dirigentes de várias associações de moradores. Na época em trabalhava na Sociedade Amigos do Bairro de Vila Progresso, em São Miguel Paulista, mas conheci e aprendi a respeitar o trabalho de dirigentes como o Damas, da Sociedade Amigos do Jardim Morgante, o Otávio Calixtrato, da Sociedade Amigos da Vila Corberi e o Jesus Teixeira, da Sociedade Amigos de Guaianases.

Minha Primeira Escola e o Contato com a Cultura de Rua do Rap e Hip Hop
E esse aprendizado nas comunidades juntava ao que aprendia na Universidade. Em Mogi aulas de História da América, Contemporânea, Idade Média, Cruzadas... Na Sociedade Amigos de Vila Progresso, onde trabalhei por muitos anos, atuava na Coordenação de atividades sociais, culturais e esportivas com adolescentes e jovens.  Depois de formado, lecionei na Escola Estadual Helena Lombardi Braga, para adolescentes do Ensino Médio e adultos do Curso Supletivo. Fiz amizade com os alunos. E também com a garotada que ficava na porta da escola só para a chamada “azaração”. Nesses dias revi nas ruas de Itaquera uma das personagens mais interessantes, a Miriam, uma menina de atitude.

Os Racionais MCs e Nelson Triunfo em Itaquera

Com apoio dos jovens levamos o grupo de Rap Racionais MCs, para conversar com os estudantes e com a rapaziada da rua que tomou a escola para conversar com Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e o articulado KL Jay. Tinha conhecido esse grupo através de dois irmãos amigos da Cidade Líder, a Leda e o Ailton. Com o Ailton ouvi as primeiras letras do Racionais. Fiquei bastante impressionado. Com ajuda da Leda, fui na casa do KL Jay na Zona Norte, entrevistar os demais componentes do grupo. Não esqueço o impacto das palavras convictas e da dignidade do poeta Mano Brown. Mais tarde também conheci outros rappers: o Marcelo (Xis) do DMN; o Face Negra, o Consciência Humana, de São Mateus, a Posse Conceito de Rua, da Zona Sul, o pessoal da Posse Aliança Negra, da Cidade Tiradentes. E os artistas da rua que faziam movimentos na Estação São Bento. Um deles, Nelson Triunfo, também convidei para dar aula para meus alunos da Escola Estadual Helena Lombardi Braga. Com essa experiência, ao ingressar na prefeitura, como professor de história também, na EMEF Danilo José Fernandes, em 1990, e na DRE Itaquera, em 1992, organizamos o Projeto Rap Ensando a Educação que promoveu a visita do Grupo Racionais em 39 escolas da Rede Municipal, em todas as regiões da cidade. Nessas visitas, os rappers conversavam com os alunos sobre temas variados: o problema do racismo, da desigualdade social, a questão da violência, etc.

Conhecendo a periferia da Zona Leste de São Paulo, através das Escolas

Depois dei aula em muitas outras escolas de São Mateus, José Bonifácio, Guaianases, São Miguel Paulista, Itaquera. Escolas da Rede Estadual e da Rede Municipal. Num momento posterior também trabalhei num Centro Social, o CESOMAR, da Congregação dos Irmãos Maristas, na Vila Progresso. Em todas essas instituições conheci e fiz amizades com muitos colegas e gestores. Também fiz amizade com várias gerações de alunos. Uma longa história de muitos conflitos, lutas, amizades. E bastante aprendizado.

Uma história na educação, combinada com a articulação comunitária, que estava apenas iniciando. Aconteceram tantas coisas, desde então, que sou obrigado a interromper a narrativa. Estamos num final de semana decisivo para a história do Brasil, quando concorre  para a Presidência, uma mulher cuja história reflete muito do que acredito e tento praticar: Dilma. Essa eleição me obriga a dar uma pausa nessa história. Vou dar uma circulada pela comunidade para viver a história que está acontecendo nas ruas. Talvez continue num próximo capítulo. Até mais...





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