Educação

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Aos amigos da educação e do Movimento Nossa Itaquera: Anotações pessoais sobre a mesa redonda “Comunidades e Trabalhadores de Itaquera”
por: Valter A. Costa
03/05/2015

Esse texto poderia ter um formato jornalístico, descritivo, impessoal. Porém, dessa vez, opto por escrever na primeira pessoa numa espécie de carta aberta,mas que, talvez faça mais sentido,  e seja melhor compreendida pelos amigos mais próximos da militância nas áreas da Educação, Cultura e Movimentos Comunitários que tive o privilégio de conhecer atuando algumas décadas na Zona Leste de São Paulo.

Quero, então, falar sobre o significado do encontro realizado, no dia 29 de abril último, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, do querido amigo padre Paulo Sérgio Bezerra, partindo mesmo de uma perspectiva assumidamente pessoal na qual possa explicitar a profunda relação do que foi tratado naquele encontro com minha própria história de vida. Minha e de preciosos companheiros que conheci em inúmeras jornadas pelas vilas e vielas dessa região.

Se naquela Mesa Redonda que tratou do tema das “Comunidades e Trabalhadores de Itaquera: pelo Observatório de Políticas Públicas e Centro de Memória da Zona Leste”, era inegável a importância da fala das colegas Cristina e Mônica que discorreram, respectivamente, sobre o Projeto Pedagógico da futura unidade da UNIFESP na região e do Observatório da Zona Leste, esse último vinculado à PUC – SP e Observatório das Metrópoles, ou do companheiro Antônio Carlos Souza, que comentou a publicação de trabalho sobre Educação Comunitária e Luta pela Moradia Popular, que produzimos conjuntamente no ano passado, o momento mais expressivo da reunião foi mesmo o da apresentação do filme “Operário na Praça Vermelha”, do cineasta João Luiz de Brito, e do protagonista desse documentário, o operário Orisson Saraiva de Castro.

Só mesmo quem esteve presente nesse encontro pode ter a compreensão do que significou a participação desse senhor de 89 anos, morador de Itaquera, naquela mesa de debates. Mas por que a presença desse operário causou tanta comoção? O que a fala de um velho militante comunista, dentro da principal igreja católica do bairro, poderia ter de tão especial? Possivelmente a maioria dos presentes desconhecia aquela figura que entrou na Igreja pouco antes de iniciar a exibição do filme. Sua história, resumida nos trinta minutos do documentário, é que jogou luz sobre a grandiosidade daquela figura até então praticamente anônima.

No filme, Orisson fala de sua chegada em São Paulo, vindo do Ceará, e das inúmeras prisões que sofreu, antes e depois de iniciar sua militância no movimento operário. De seu trabalho na Fábrica Nitro Química, em São Miguel Paulista, e do contato inicial com os quadros sindicais e do Partido Comunista nessa região, organizadores da primeira greve em que participou. Orisson também fala de seu ingresso e militância na base operária comunista na região da Mooca, local de grandes paralisações e concentrações realizadas na Campanha pela Paz, nas quais o principal ponto de encontro era a então conhecida “Praça Vermelha”, na Rua do Oratório. Fala de seu contato com o então jovem João Saldanha, o conhecido esportista que também militou na juventude comunista da Mooca. Fala da bravura das mulheres operárias nas greves e enfrentamento com a polícia chamada para reprimir as manifestações. Fala com admiração da líder operária Maria Corazza, cuja história nos dá vontade de conhecer.

Mas fala também da fundação, a serviço do Partido Comunista, do Sindicato dos Metalúrgicos de SãoBernardo do Campo, e de sua primeira diretoria, praticamente toda “vermelha”. E fala ainda do Golpe Militar de 1964 e da dificuldade de resistência da esquerda que então se dividiu, mais ainda. Comenta um dos seus encontros com Carlos Marighella e seu grupo de estudantes que aderiram à guerrilha na luta armada contra a ditadura. Não esconde nem sua crítica à opção da luta armada nem sua admiração por aqueles que escolheram esse caminho.

O respeito de Orisson por Carlos Marighella e outros combatentes da esquerda que escolheram essa via do confronto armado não diminuem, porém, as críticas que desfere contra a atuação de outro agrupamento, de coloração também esquerdista, o MIR,que atuou no Chile pré golpe militar. Orisson estava no Chile quando ocorreu o golpe militar de 1973 que suprimiu a democracia naquele país e tirou a vida do presidente Salvador Allende, e de muitas milhares de pessoas,que foram assassinadas na mais brutal e sanguinária das ditaduras militares implantadas, com a ajuda financeira e logística dos Estados Unidos, na América Latina.

Após o golpe chileno, Orisson buscou refúgio no Panamá, onde trabalhou por alguns anos até ser transferido para atuar na FRELIMO, em Moçambique, através de recomendação feita por Luis Carlos Prestes, Secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade, ao presidente daquele país africano.

Sobre essas passagens é que falou Orisson, hoje residente em Itaquera, no filme e na mesa redonda, ao lado de colegas da academia (da PUC, USP e UNIFESP) e para um público predominante de professores, onde contou ainda sobre suas prisões, o amor ao jogo de xadrez e aos estudos. De seu autodidatismo e importância da literatura e do estudo das ciências e da filosofia. Fala de alguns grandes pensadores da humanidade: Freud e Karl Marx, por exemplo. Mas cita, também, o Papa João XXIII.

E é disso que trata o filme do João Luiz com imagens do operário sendo entrevistado pelos professores que formaram, no cinquentenário do Golpe Militar, a Comissão da Verdade de Itaquera “Geraldo Castro da Silva”. Uma comissão cujo nome faz homenagem a outro militante comunista de Itaquera, já falecido, um enfermeiro que trabalhou muitos anos no Hospital Santa Marcelina, tendo sido fundador e dirigente da Sociedade Amigos do Bairro de Vila Carmozina. A história de Geraldo Castro também mereceria outro filme. Sua atuação clandestina no Partido Comunista Brasileiro. Suas prisões e torturas que sofreu em décadas de militância. Sua última prisão ocorrida na mesma época em que foi capturado e assassinado,sob tortura,  o operário comunista Manoel Fiel Filho, nas dependências do Segundo Exército. Foi o corajoso depoimento de Geraldo Castro da Silva, que ouviu de sua cela os gritos vindos da cela vizinha,onde Fiel Filho era torturado,  que colaborou decisivamente para desmontar a farsa de que o operário tinha praticado o “suicídio” na prisão.

Para mim e também para outros amigos participantesdaquela mesa redonda, era especialmente significativo participar do encontro com o camarada Orisson, ainda bem vivo e lúcido, em conversa com educadores sobre documentos escritos e audiovisuais nos quais as histórias,  desses e outros personagens,  são finalmente contadas. Pudemos rememorar as reuniões que fazíamos, ainda bem jovens, nas casas desses antigos militantes, o Sebastião Francisco, o Negro, na Cidade Líder e o Geraldo Castro da Silva, na Vila Carmozina. As análises do pedreiro Sebastião Francisco sobre Política Internacional ou as análises sobre a Conjuntura Nacional, feitas pelo enfermeiro Geraldo Castro, nas reuniões das células do bairro do Partido Comunista, hoje talvez não faça mais parte da prática de todas as organizações de esquerda. O que aprendemos nessas reuniões daquela época, nenhuma das Universidades que frequentamos depois foi capaz de igualar. Um salve à memória desses queridos camaradas!

Valter de Almeida Costa



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